Blog da Priscyla França

Revista Padaria 2000 - Edição 10/2020

Chocolate com alma

Já parou para pensar que quando compra um chocolate, está comprando toda
história e processo desde a fazenda até o produto final?
Já parou para pensar sobre a cadeia produtiva dos alimentos que consome?
Se é uma cadeia justa, que respeita o pequeno produtor e os trabalhadores
envolvidos?
Já parou para pensar que em pleno século XXI ainda temos mão de obra escrava,
exploração infantil e trabalho sob condições desumanas nas plantações de
cacau?
Quando compramos um chocolate de determinadas empresas, estamos
financiando e compactuando com este esquema sórdido que o mercado do cacau
ainda insiste em praticar.
As vezes, é fácil falar sobre a mão de obra escrava e trabalho infantil na Costa do
Marfim (África), que atualmente é o maior produtor mundial, mas temos casos
tão preocupantes quanto, aqui mesmo no Brasil.
Nos últimos 15 anos, mais de 148 pessoas foram resgatadas do trabalho escravo
nas fazendas de cacau no Brasil. Além de várias outras serem notificadas por
violação aos direitos humanos, condições de moradia degradantes, servidão por
divida e trabalho infantil.
De acordo com último levantamento do Ministério Público do Trabalho, existem
cerca de 120 mil produtores de cacau no Brasil, onde sua maioria ainda é de
agricultura familiar. Como não possuem recursos financeiros para contratar
funcionários, eles utilizam a mão de obra de seus filhos ainda criança e
adolescente, fazendo com que na época da colheita eles abandonem as escolas e
trabalhem na fazenda com seus pais.
São bilhões de dólares movimentando este mercado anualmente, mas o dinheiro
fica nas mãos de poucos e os trabalhadores ficam a mercê de atravessadores que
exploram, pagam muito pouco e as vezes pegam o cacau com a promessa de que
vão voltar para pagar, mas não voltam e estes pequenos produtores que não tem
muitas vezes para quem vender e acreditam nos atravessadores que aparecem,
ficam sem o cacau e sem o dinheiro prometido.
As industrias continuam comprando sem se preocupar com a origem deste cacau
e alimentam o que hoje é um dos maiores absurdos, a escravidão!
Por isso, quando falamos em um alimento com alma, estamos falando de um
alimento que respeita toda a cadeia produtiva, todos os trabalhadores
envolvidos, onde o processo foi feito de forma transparente. E quando comemos,
nos deixa com a consciência tranquila.
O final do ano está chegando e com isto, queremos presentear quem amamos.
Um dos presentes escolhidos muitas vezes é o chocolate.
Mas gostaria de trazer uma reflexão no momento de escolher o presente deste
ano. Procure produtores artesanais de chocolate, que valorizam toda a cadeia
produtiva, que pagam um preço justo pela matéria prima e que se preocupam
com todas as pessoas envolvidas sendo transparentes quanto seu trabalho.
No caso do chocolate, temos o chocolate bean to bar artesanal. Que tem
justamente esta filosofia de trabalho.
Assim, aproveite este final de ano para presentear não só quem ama, mas todos
os envolvidos na cadeia produtiva do chocolate que esta comprando.
Está nas suas mãos presentear a todos!

Revista Padaria 2000 - Edição 08/2020

Resilientes como o cacau

O cacau já esteve intimamente presente entre os Maias e Astecas. Onde
era considerado tão precioso que somente os nobres, sacerdotes e guerreiros
tinham acesso liberado a ele. Já chegou a ser usado como moeda corrente na
época. Além de ser usado, para selar casamentos, purificar crianças recém
nascidas e quando por ventura um parente próximo morria era feita uma bebida
espessa e escura, a base de cacau para garantir ao morto uma viagem tranquila
ao mundo do além. Já foi uma bebida oferecida aos deuses e atualmente as
amêndoas de cacau são consideradas um dos alimentos mais completos do
mundo.
O cacau estimula o sistema cardiovascular, relaxa os músculos e dilata os
vasos sanguíneos. Contém serotonina, dopamina e phenyltelamina, que são
neurotransmissores, que ajudam a aliviar os sintomas de depressão e estão
diretamente ligados a sensação de bem estar. Além de conter anandamina, que
está ligada a sensação de felicidade e várias vitaminas, entre elas, a vitamina B,
uma das responsáveis pela saúde do cérebro.
Mesmo sendo tão complexo e já tendo ocupado um lugar tão especial e de
destaque na sociedade. Na década de 80 o sul da Bahia, sofreu uma queda de
produção de quase 100%, devido ao fungo Moniliophtora perniciosa conhecido
como vassoura de bruxa.
Desde então, os fazendeiros e estudiosos buscam uma forma de conter a
praga e aumentar a produção melhorando a qualidade do cacau e o tornando
mais resistente a doença. Fazendo com que voltemos a ter um destaque
novamente na produção e exportação de grãos com mais qualidade.
E o que eu quero dizer com isso?
Que apesar de ter tantos benefícios a saúde e de sua importância
econômica e social. Ele sofreu com uma doença que quase o derrubou, mas está
se levantando muito mais forte, com mais resistência e qualidade do que nunca.
Assim, somos nós hoje. Talvez uma grande padaria ou uma confeitaria,
que estava no auge do sucesso e foram surpreendidos por esta pandemia que
veio nos mostrar uma nova realidade do mercado e como devemos nos
reinventar para atrair nossos clientes.
Por isso, o cacau é um grande exemplo de resiliência, que devemos
observar para tentar usar como exemplo. Pois, apesar de ir quase a zero, hoje se
ergue com muito mais qualidade e resistência que antes. Exatamente como
faremos para nos reerguer depois que esta pandemia passar.

Flor do Cacau